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quinta-feira, 5 de março de 2015

Lembranças para Emily




Acordei hoje com vontade de não ir. De largar tudo, todo o futuro que tenho pela frente para ficar apenas com ela. Minha Emily, minha doce e querida Emily.

Completamos 2 anos juntos verão passado e ainda sinto a mesma dor no estômago quando vejo aquele rosto cheio de sardas, seu cabelo alaranjado que fica brilhante em todo dia de sol. Não acredito que vou ter que deixar tudo isso para trás, todo o seu amor. Dói só de imaginar em abandoná-la, logo nesse momento tão frágil, pois há dois meses que seu pai morreu em um acidente de carro indo para Illinois. Mas que escolha eu tenho? Provavelmente meus pais detestariam saber que penso em fazer isso, mas partir e deixá-la é uma coisa que não pretendo fazer.

Sei o que você deve estar se perguntando: para onde ele vai? Bom, respondendo a sua pergunta, consegui uma bolsa para estudar música em uma universidade em Londres. Recebi essa notícia tem uma semana e ainda não contei para Emily por ter medo de sua reação. É muito difícil para mim decidir ir e deixar Indiana, onde eu nasci, cresci e a conheci.

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Faltam poucos dias para a viagem e resolvi lhe contar tudo. Mas antes, pensei em fazer um presente pra ela. Sei que isso faz com que pareça que estou a comprando apenas pra poder me deixar ir, mas não é verdade. Só quero que Emily tenha boas lembranças de mim. Peguei todas as fotos que eu tinha guardado dela, de nós dois juntos e até fotos minhas que eu não gostei mas guardei por ela ter sorrido para mim como ela sempre faz e aquele sorriso consegue destruir qualquer argumento. Depois de algumas horas, estava pronto o presente: todas as nossas fotos, cartas que eu escrevia para ela mas acabava desistindo de entregar, vídeos nossos, fitas com músicas que ela chamava de "nossas" e suas flores favoritas: orquídeas.

Marcamos de nos encontrar no parque, pois ela adorava se sentir perto da natureza. Quando cheguei, lá estava ela: seus cabelos presos para trás com um arco, seu vestido florido dobrado para que conseguisse sentar de um jeito confortável. Ela estava lendo um livro quando subiu os olhos em minha direção e sorriu. Como aquele sorriso me doeu. Pensar que, em minutos, talvez ele poderia não estar mais naqueles lábios rosados. Prendi a respiração, sorri de volta e andei.


 Kyle! Achei que tinha morrido. Não retornou minhas ligações desde ontem.  Sabe quando você vê a tristeza nos olhos da pessoa e também vê que está tentando manter as aparências? é o que ela estava fazendo agora. Na verdade, era o que ela sempre fazia quando eu a chateava.

— Eu não estava me sentindo bem, mas hoje acordei bem melhor e queria muito te ver.  Sorri. E percebi que não deveria ter feito isso, pois ela me abraçou tão forte que eu quase senti meu coração se despedaçando de tanta dor. Prendi a respiração outra vez.

— Então, o que vamos fazer hoje? Pensei que podíamos alugar um filme de terror que você goste e podemos ver lá em casa. Vou ter que tomar conta do Jamie hoje. Ainda não está animado para sair.

Jamie é o irmão mais novo de Emily. Tem só dois anos e ainda não entende o porquê do pai não voltar para casa. A Sra. Carter nunca consegue explicar e sempre sobra pra Emily.

— Preciso te contar uma coisa antes.

E falei. Falei sobre tudo, sobre a viagem, sobre a bolsa, sobre ter que morar a quilômetros de distância, sobre o presente e sobre aceitar qualquer decisão que ela queira tomar. Entreguei o presente. Ela não abriu. Olhou para a caixa, olhou para mim com os olhos tristes e me abraçou. E naquele momento não consegui mais prender respiração alguma. Ela chorou e eu compartilhei o meu choro com ela. Depois de uns minutos abraçados, ela me soltou e resolveu abrir o presente. Ela leu todas as cartas, viu todos os vídeos, ouviu todas as músicas no seu aparelho e olhou todas as fotos. Então ela virou pra mim e disse:

— Podia ter me contado antes, eu entenderia da mesma forma. Você não precisava ter esse trabalho todo só para me contar isso. Eu não ia te obrigar a ficar, sei que é algo importante pra você e que gosta do que faz. Vão ser três messes para você se adaptar. Você vai, vê se é o que você quer mesmo e qualquer coisa muda pra cá de volta. Só não desperdice essa oportunidade por minha causa.

Concordei com ela e ficamos ali, abraçados, esperando o sol se pôr e aproveitando nossos últimos momentos juntos.

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Cheguei na universidade. Conheci todos os meus colegas desse trimestre, as salas e o meu quarto. Desfiz as malas e guardei tudo no devido lugar. Descansei por algumas horas por estar cansado do voo. Ao acordar, fui pegar o presente que Emily deixou para mim, um presente de boa viagem. Era uma caixa com um avião de pelúcia com um cartão que ela escreveu à mão:


"Saiba que eu te amo muito e quero que aproveite cada segundo desse trimestre que você tem para aperfeiçoar o seu dom com a música. Quando você voltar, terá uma surpresa. Beijos, da sua eterna Emily. P.S.: Abra o pote azul que está na parte da frente da sua mochila."

Peguei minha mochila curioso com o que ela deve ter escondido lá enquanto eu arrumava o restante das minhas coisas. Demorei um pouco para encontrar pois era uma caixa pequena. Ao abrir de mal jeito, eu vi o que caiu no chão: me deparei com um par de sapatinhos pequeninos que cabem perfeitamente na palma da minha mão. Fiquei confuso por um tempo e depois de um choque de realidade, eu entendi.Grávida. Emily esperava um filho meu. Ela não me contou para que eu não desistisse de viajar. Agora tudo ficou  mais claro. Mas, mais do que antes, não tenho motivos para ficar. Tenho que voltar. Voltar para minha Emily e nossa criança, voltar para minha família.

2 comentários:

  1. Nossa Thay, hahaha adorei.
    Quero saber o que vem agora.
    Esta super bem escrito também.

    Parabéns!!

    www.saladadelivro.blogspot.com

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  2. Owwwwn. Adorei. Esse n despedaçou "micorasaum". Sucesso. Fico otimoo. esperando a continuação. E já vou dizendo #publiqueumlivro ♥

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